O quanto é muito?
Eu continuei tentando conquistar o Miguel. Chocolates, cartas, bilhetes.
Mas o tempo passava como a areia numa ampulheta e eu queria saber se ele estava ou não se apaixonando por mim. A ansiedade da adolescência, sua inocência e inconsequência percorriam minhas veias.
No fundo eu não acreditava muito que ele pudesse se apaixonar por mim, mas eu queria continuar tentando, tentando...Havia algo que me puxava para aquelas águas mais e mais.
Passado alguns meses e já perto das férias do meio de ano, eu resolvi perguntar com todas as letras se ele queria ficar comigo ou não.
Colhi uma flor amarela, o chamei para conversar na hora do intervalo e perguntei o que ele sentia por mim. Ele não me olhava nos olhos quando respondeu:
-Nada!
No nada há algo? Mais para frente eu diria que sim, mas naquele momento só havia a constatação do vazio. Não há nada pior para um coração apaixonado que ouvir que seus sentimentos não são recíprocos. Ele ainda completou dizendo que não tinha gasolina pro meu fogo..Fogo do que? Da paixão? Do desejo. Os homens sempre falam cada idiotice que sinceramente.
Doeu ouvir o que ele disse. Mas a vida gosta de nos pregar peças e algumas quando a gente escreve após anos tem um tom engraçado.
Esse fora que eu levei foi uma semana antes do meu aniversário de 16 anos e quando chegou o dia do meu aniversário eu ainda estava tendo aula. Sabemos bem que existem rituais de fim de bimestre e rituais de aniversário quando se trata de escola.
Nos fins de bimestre, como o segundo por exemplo, quem já passou vai pra escola não levar faltas e ver os amigos, as férias estão próximas, mas não chegaram. Então, as aulas se dividem entre fazer alguma atividade pra cumprir tabela ou poder ficar livre e papear. Quanto aos rituais de aniversário a gente canta parabéns e tínhamos o hábito de cantar aquela música do ´´com quem será´´.
Bom, digamos que vivi os dois rituais no mesmo dia. Estávamos numa noite de aula papeando e trocando ideias, óbvio que a questão do fora que levei era uma das pautas. Óbvio também que no enérgico da juventude a gente não guardava segredos e quando víamos várias pessoas sabiam mais do que deviam sobre a nossa vida. Óbvio também que meus amigos acharam de bom tom cantar parabéns pra mim e depois ´´com quem será´´, tendo apenas eu e Miguel no meio de uma roda com muitas pessoas, pessoas de outras salas e nossos professores a de português e o de geografia, puxando o coro.
Era quase como se estivéssemos numa final de copa do mundo ao caminho do gol da vitória. Demos um Celinho apenas e foi uma das maiores gritarias que já ouvi na vida.
O coordenador que estava no dia veio ver o que era e tamanha foi a correria de quem era de outras salas pra não levar bronca e estar nelas quando ele chegasse. Fingimos estar quietos e arrumados e quando o coordenador chegou nos perguntou o motivo de tanto barulho, eis a resposta de uma colega:
-A gente tava gritando porque queria receber logo a paçoca de Festa Junina (minha escola sempre estregava uma paçoca na semana de festa junina).
Meu coordenador olhou desconfiado, mas sem provas não há crime não é mesmo e respondeu que ela seria entregue no próximo horário.
Pensa num coletivo de risadas nervosas depois disso.
Miguel não gostou de como tudo aconteceu e me considerou culpada da situação. No outro horário em que fomos assistir um filme, ele mal falou comigo e só disse que eu saí de muito bonita. Fiquei incrédula, havia sido tão constrangedor pra mim, quanto foi pra ele, jurei que pós-férias eu voltaria sem sentir absolutamente nada por ele. Será que eu conseguiria manter essa promessa?

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