Quem liga pra essa história?

 Como diz a filósofa estadunidense bell hooks, nós aprendemos a amar e aprendemos na infância. Há muita coisa que a gente chama de amor e considera amor e quando cresce a gente se pergunta se realmente é aquilo é ou não. 

O amor enquanto sentimento é talvez um dos mais complexos porque ele tem mil facetas e podemos sentir várias delas pela mesma pessoa. O amor romântico (por falta de expressão melhor) é talvez o mais chato pra mim. Me causou crises de ansiedade, noites mal dormidas e a sensação que eu fico um pouco burra no processo. Isso tudo claro não é novidade pra quem lê sobre relacionamentos héteros que envolvem pessoas cis, pra quem lê sobre gênero e feminismo no geral...No fim das contas a gente percebe que tem narrativas hegemônicas e que essas tomam a TV, o rádio, os livros e agora a internet. Até que ponto nossas experiências não são só ciclos previstos de uma macroestrutura poderosa que faz com que nos comportemos de uma dada forma? Ah eu não sei, tô colocando a pergunta porque gosto de perguntar. 

Dito tudo isso, o que faz a gente ligar ou não pra uma história? Quanto tempo uma história tem que ter acabado pra não nos importarmos tanto com ela? Uma vez ouvi de um amigo e uma amiga que o tempo do psiquismo não é o mesmo do tempo cronológico. Existem experiências que ficam conosco pra sempre, porque talvez algumas coisas cheguem muito cedo na nossa vida. Mas se eu escrever toda essa história...Significa o que? 

Quer saber não importa. Só quero que ela fique em algum lugar que não seja só a minha memória. 

Como muitas histórias de amores a minha começa na escola. Uma bela manhã de algum mês do início dos anos 2000 minha professora Ingrid do fundamental I me escolheu junto com alguns colegas para fazer parte de uma peça de teatro. A peça seria escrita por nós coletivamente e atuada também. O tema era sobre ocupação desordenada do espaço, pois é, minha escola já colocava a gente pra pensar nessas coisas. 

Dentro do tema abordamos a história da nossa cidade que nasceu de uma ocupação ilegal dos trabalhadores que construíram a capital e queriam uma vida melhor. Nós então, que estávamos estudando o tema pensamos na história de três família retirantes que chegaram após a criação de Brasília e queriam encontrar algum emprego e conseguir estudo para seus filhos e filhas pequenos e pequenas. Eu ajudei com algumas ideias, mas estava um pouco preocupada com esse negócio de atuar, pensando bem seria a segunda vez que eu atuaria, a primeira foi fingindo ser uma bailarina de circo numa apresentação vergonhosa de dança.

Voltando a peça, a professora colocou alunos de todas as salas pra participar. Fiquei com o papel de mãe e esposa (HAHAHA, adorei, só que não), para uma criança de 10 anos isso era uma baita vergonha, mas vamos lá já tinha dito que topava. Meu marido seria um garoto de outra turma chamado Miguel. Mais alto que eu, sorriso travesso e jeito meio tímido, meio alegre demais. Adivinhem só, eu o achei lindo e não fui só eu. Mas naquela época nada muito para além iria acontecer, éramos jovens chegando na puberdade tentando entender como tudo isso funcionava, era como colocar o pé na piscina e ver se a água era gelada ou não e comparar com a temperatura do chuveiro. 

Pois bem, atuamos juntos e eu na época o achei muito educado, diferente dos outros meninos que eu detestava (cresça com pessoas durante anos e viva mil experiências e veja se não vira uma irmandade positiva ou negativa) porque viviam fazendo bullying comigo e eu criada numa família de 95% de mulheres não era muito afeita a aceitar calada ofensas vindas de homens independente da idade. 

Claro, que tinha que ter um PORÉM nisso tudo, no dia da peça todos os garotos estavam entusiasmados com a menina que na época era a mais bonita de todas (metida na mesma proporção), Agatha. E claro que Miguel também estava. Claro por que? Porque os homens são levados a seguir o bando desde a infância, Valeska Zanello fala disso em um livro seu sobre a masculinidade como uma casa a qual eles precisam e querem ser aceitos. Além de reparar nos olhares dele o que pode ou não ter me incomodado porque ele claramente demonstrou que queria estar apresentando a peça com Agatha e sendo seu marido fictício, ele me solta uma pérola ´´ nossa como você é gorda´´, não tem problema nenhuma nessa frase e hoje sabemos que isso é apenas uma característica física como qualquer outra, mas no auge dos meus dez anos, criada vendo novelas, achei um absurdo. Considerei que ele havia me xingado, fiquei triste e magoada e eu que já não tinha certeza se queria me expor por ouvir falar mal dos meus óculos e orelha, agora tinha que me preocupar coma barriga usando meu vestido branco que sobressaltava meu buchinho infantil, por outro lado já era uma pessoa que me perguntava, qual o problema do meu bucho? E se eu me esconder a vida toda vai ter tanto lugar assim pra eu me esconder? Fiz a peça, não falei mais nada com esse menino e torci pra nunca cair na mesma sala que a dele. 

Mas o destino ri da nossa cara quando dizemos nunca, ele diz: O tempo é mais forte que o ser humano e dele eu sei, vocês não. E aí será que o destino me ouviu ou jogou suas cartas na mesa num outro momento? 






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